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Caça-Palavras

Casal de idosos lendo jornal juntos

A foto que inspirou esse texto — vista num monóculo fotográfico.

Contam que, quando eu era criança, eu pegava o jornal que meu pai tinha acabado de ler, sentava na poltrona de frente pra janela que batia o sol da manhã e balbuciava um monte de coisa, como se estivesse lendo também. Sempre tive uma curiosidade imensa pelo mundo e pelas palavras dele — sabia que ali era uma fonte inesgotável de assunto pra caçar.

Quando te conheci, você estava com um desses na mão. Começou a me contar as notícias, tudo que tinha ali — eu já sabia de cada uma, fingi que não, só pra te ouvir falar. Lembro de você se encantando com as minhas ideias, com as minhas opiniões. Voltando no tempo, acho que a gente se apaixonou pelo repertório um do outro sem perceber que estava se apaixonando por si mesmo.

Depois que casamos, passamos a caçar as palavras todos os dias — você me contava as notícias primeiro, e a gente discutia detalhe a detalhe. Os sábados eram os meus preferidos. Passávamos a manhã inteira assim, tomando café.

É engraçado pensar que foi te vendo ler o jornal, toda manhã, que eu tive medo pela primeira vez de que a rotina esmagasse o amor. Você sentava ao sol da manhã, abria o jornal, não falava mais nada por uma hora — respondia o nosso caça-palavras sozinho. Foi ali que eu me dei conta de que alguma coisa tinha acabado.

Quis me separar num sábado de manhã daquele mês, em 1980. De novo em 85. Em 92 quase pedi o divórcio, mas pensei que dava mais trabalho do que aguentar a rispidez na hora do almoço. Quando foi que você parou de se interessar pelas minhas ideias? — eu ficava pensando.

A rotina esmaga o amor, mesmo. Passei a me irritar com o barulho do seu xixi de madrugada, com o jeito que você cuspia depois de escovar os dentes, e do nada você não suportava quando eu esquecia o leite fora da geladeira... precisava gritar daquele jeito?

Não sei dizer o dia exato em que o jornal virou só jornal de novo. Só sei que teve uma manhã, acho que uns cinco anos atrás, em que você empurrou o caça-palavras pra mim, apertou os olhinhos enrugados e falou: "Essa aqui eu não sei." Eu não sou boba, mas me fiz de boba — respondi, e você ficou ali olhando, esperando a próxima. "E essa aqui, você sabe?"

Um dia da semana. Depois dois. Depois todo santo dia de novo. Caçando as palavras, lendo as notícias, falando sobre tudo, conhecendo sobre o mundo. E foi ali, décadas depois, que eu entendi o amor de novo.

A rotina esmaga o amor, até que ela o salva de novo.

— Patrícia Pavoni