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Agenda Nada Burocrática

Torre de igreja iluminada em Curitiba à noite

Eu, que não sou a fã número 1 de sair de casa, fui de "meu Deus, não tem nada pra fazer" pra "meu Deus, como darei conta de fazer tudo isso?". É assim, só a gente se esforçar um pouquinho mais que a agenda fica cheia.

Enquanto ia cumprindo minha agenda nada burocrática da semana, reparei que certos ambientes dão vontade de guardar, e quando bate isso, eu registro… Em vídeo, em foto... não é cena incomum me ver com o celular na mão, tirando foto de alguma coisa: uma paisagem bonita, uma ilustração numa exposição, um registro de uma mostra de fotos, a arquitetura de um museu, uma foto bonita de um amigo, as luzes da cidade durante o entardecer (EU AMO as luzes da cidade).

Curitiba à noite Prédios históricos de Curitiba

Depois que assisti A Arte da Diplomacia, no Museu da Imagem e do Som aqui em Curitiba, ficou na minha cabeça o quanto desses momentos poderiam ser melhores se fossem compartilhados mais e mais. Um documentário desses rende tanta coisa, é tanta informação, tanta referência. Esse em especial me fez entender mais sobre arte, sobre arte e política, sobre a história do nosso passado, sobre diplomacia. Não dá vontade de acumular só dentro de mim, sabe? Fiz um microvídeo dele, você pode saber um tiquinho mais clicando aqui, e pode assistir ele também nas plataformas digitais. Do the research.

Nos últimos dias visitei lugares que gostaria de compartilhar também, então senta e segue o fio.
Vamos por ordem.

Projeto Cárcere — Por Trás do Muro

Atrás do MIS-PR — Museu da Imagem e do Som do Paraná tinha um muro, e atrás desse muro ficava o prédio do antigo Centro de Triagem, no centro histórico, colado no Palácio da Liberdade. Todo mundo sabe do presídio do Ahu, mas poucos sabiam que, bem no centro, tinha algo parecido. Digo isso porque "Centro de Triagem" era o que ele deveria ser, mas o boato é de que era muito mais parecido com uma penitenciária: detentos que deveriam ficar lá por pouco tempo, até serem transferidos, ficavam por anos. Esse muro não existe mais, e hoje, nesse espaço que já abrigou inúmeros detentos (bem mais do que deveria caber), fica a exposição "Desse Lado do Muro", parte do Projeto Cárcere: fotos de Erick Dau, Francisco Proner e Thiago Dezan, feitas em 18 presídios de sete países latino-americanos, em parceria com a Agência Farpa. O prédio foi desativado como centro de triagem em 2023 e realocado pra cultura, memória e direitos humanos. A mostra existe pra expor as paredes da invisibilidade, provocando empatia e desconforto sobre a condição de quem está privado de liberdade. Tenho fotos e vídeos aqui, prepare o estômago.

Exposição Desse Lado do Muro Exposição Desse Lado do Muro

Festival da Palavra, oficina de crônica

Eu não posso esquecer do dia que resolvi participar ativamente do IV Festival da Palavra de Curitiba. Participei da oficina de leitura com Carla Viccini e me senti em casa, relembrei que amo escrever, que tenho tanto pra falar e que não posso deixar de fazer isso. É um daqueles momentos que acontecem na vida da gente que fazem você lembrar por que está caminhando, sabe?

Nessa sala lemos Alhures do Sul, de Manoel Carlos Karam, escritor curitibano de crônicas, tão curtinhas e cortantes. Pra comprar tá nesse link da Amazon.

São crônicas que ele deixou gravadas e que, depois, o filho enviou pra alguns escritores (incluindo a Carla, a professora do dia), que as transcreveram. Cada página traz a data em cima e a crônica embaixo, porque era exatamente assim que ele gravava: primeiro falava a data, depois seguia com o texto.

As últimas três páginas do livro estão em branco.

O último registro é ele falando a data, e nada depois. Naquele dia ele não gravou crônica nenhuma. Morreu três dias depois, em 1º de dezembro de 2007, aos 60 anos, em Curitiba.

Três páginas vazias, três dias. Eu achei isso, assim, de uma delicadeza.

Também pude escrever minha crônica, com base na observação da foto desse casal, vista num monóculo fotográfico:

Casal de idosos rindo, sentados num banco com um jornal
Caça-Palavras
Um casal de idosos, décadas de casamento, e o hábito do caça-palavras que quase morreu no meio do caminho e voltou.
Festival da Palavra de Curitiba, Memorial de Curitiba

Museu Egípcio e Rosacruz

Aqui em Curitiba tem museu egípcio de verdade, com colunas em formato de lótus e hieróglifos na parede, plantado no meio do bairro Bacacheri, e é lindo.
Tem muitas réplicas das originais e tem múmias de verdade — dessas eu não pude tirar foto. Precisa de tempo pra ver esse, porque ele é dividido em três museus, um externo e outros dois. O Museu Egípcio e Rosacruz foi inaugurado em 17 de outubro de 1990, durante uma convenção nacional da Ordem Rosacruz, a AMORC (menino, eu nunca entendi direito o que era rosacruz até hoje, mas agora posso fazer um texto só sobre isso se quiserem), a partir da coleção pessoal do artista Eduardo D'Ávila Vilela, que doou suas peças egípcias pra ordem e sugeriu que se criasse um espaço só pra elas. O prédio foi desenhado pra lembrar uma mastaba — o formato de túmulo egípcio do Império Antigo — e cumpre bem o papel: você entra achando que vai ver uma sala de réplicas e sai com a sensação de ter atravessado um portal.

Ingresso do Museu Egípcio e Rosacruz

Paguei meus R$ 38 e não me arrependi de um centavo.

Poty e o sertão de Rosa

Placa da exposição Rosa e Poty

Depois fui pro centro histórico, na Galeria Solar do Rosário, ver "Rosa e Poty, traços de outros achamentos", com curadoria de Maria José Justino. É sobre o encontro entre Poty Lazzarotto — curitibano, nascido em 1924, um dos maiores ilustradores que o Brasil já teve, com mais de 170 livros no currículo — e Guimarães Rosa.

Ilustração de Poty

A história por trás das ilustrações é ótima: quando Poty ilustrou Grande Sertão: Veredas, Rosa foi extremamente controlador — não deixou nenhuma imagem dentro do texto, só na capa e nos mapas do Rio São Francisco. Resultado: os mapas viraram uma cartografia mística por conta própria, cheia de símbolos que não têm nada de cartografia de verdade.

Capa de Grande Sertão: Veredas Mapa místico de Poty Mapa místico de Poty

Já em Sagarana, Rosa soltou a rédea e deixou Poty criar duas séries inteiras de ilustrações, uma em 1958 e outra em 1970, partindo do imaginário da literatura de cordel. A diferença de liberdade entre um livro e outro dá pra sentir só de olhar: os mapas são contidos, quase escondidos; já as gravuras de Sagarana têm um vaqueiro solto no meio de crânios de boi pendurados numa árvore, puro drama de sertão.

Gravura de vaqueiro e crânios de boi